10 de maio de 2015

REDE #GLOBO, 50 ANOS - Plim-plim, oba-oba, bye-bye

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Vênus dita estrela d’alva, começa o dia, mas também designada como Vésper, é a que o encerra. O apelido de “Vênus Platinada” designava o resplandecente prédio administrativo da TV Globo na Rua Lopes Quintas, no Jardim Botânico (Rio), inaugurado em 1976, onze anos depois da primeira emissão e, depois, estendido à emissora e à rede.

Como todas as alcunhas, espontânea e sarcástica: Vênus é um equívoco – brilha forte, mas não é estrela, é planeta. Não é feminina, mas masculino. A platina, metal mais raro e precioso do que o ouro, gera o adjetivo platinado/platinada com idêntico sentido pejorativo de dourado/dourada – falso, falseado.

O pedido de concessão feito pelo jornalista Roberto Marinho para uma emissora de televisão foi aprovado em 1951, no fim do governo de Eurico Gaspar Dutra, mas revogado por Getúlio Vargas pouco antes do seu suicídio. O que explica alguma coisa. Novo pedido foi aprovado em 1957, com Juscelino Kubitscheck na presidência da República. O lançamento da emissora, anos depois, foi algo tumultuado. Como seria o canal 4 do Rio de Janeiro, pretendia-se iniciar as transmissões no domingo, 4 de abril (4/4). Problemas com os equipamentos de última geração só permitiram que o lançamento ocorresse na manhã de uma cotidiana segunda-feira, 26 de abril de 1965, com a bênção do reacionaríssimo cardeal D. Jaime Câmara.

O que não impediu outras fatalidades imediatas: por exemplo, na abertura do programa Show da Noite da sexta-feira, 13 de agosto, apresentado pelo ator Gláucio Gil. Quando, diante das câmeras, o apresentador dizia que até aquele momento o dia aziago não se confirmara, teve um enfarte agudo e morreu.

A fama de pé-frio só desanuviou na terrível enchente em janeiro de 1966, quando a TV Globo ficou 24 horas no ar e levou as suas câmeras para a rua para ajudar os desabrigados e localizar as vítimas da catástrofe.

Entrevista dolorosa

Pouco antes do início das transmissões, este observador, então editor-chefe do Jornal do Brasil, enviou um longo memorando a todos os editores, subeditores e responsáveis pelos serviços de apoio da Redação chamando a atenção para uma nova realidade: a entrada da TV Globo no ar significava uma nova fase na cobertura jornalística. Embora a TV brasileira tivesse começado em 1950, a Globo chegava alavancada pelos vastos recursos do grupo americano Time-Life, mas também por uma competência profissional que se irradiava por todos os escalões do jornal e da rádio coirmãs.

A bagunça da TV Tupi e de suas concorrentes jamais preocupou e a inteligência da TV Excelsior (do empresário Wallace Simonsen) estava sufocada pelo cerco econômico imposto pelo governo militar.

A partir daquele momento – dizia o memo, cujo original infelizmente encontra-se perdido – o jornal do dia seguinte deveria ser pensado em função do conteúdo do Tele Globo, o noticiário da noite anterior (precursor do Jornal Nacional). Os fatos noticiados pelo jornal deveriam chegar ao leitor renovados e enriquecidos por análises e interpretações, porém sem o recurso de colunas independentes (praga hoje responsável pela perda do viço e a linearidade da matéria noticiosa).

O Departamento de Pesquisas do JB, criado meses antes, deixaria de ser exclusivamente um serviço de apoio aos repórteres e redatores passando a produzir suas próprias matérias, devidamente identificadas, para fornecer ao noticiário os contextos e complementos que o telejornal da véspera jamais ofereceria.

Outras providências foram implementadas, todas na direção do aumento da densidade jornalística e facilidade de leitura que deixariam o Jornal do Brasil invulnerável às novas tecnologias. O jornal O Globo só adotou a nova postura anos mais tarde, quando passou a ser comandado por Evandro Carlos de Andrade (ex-JB).

O derradeiro embate entre o Jornal do Brasil e o Globo, no início dos anos 1970, deu-se quando o ex-vespertino O Globo resolveu assumir-se integralmente como matutino e, contrariando tradição e protocolos corporativos, passou a circular também aos domingos, o que levou o JB a invadir o território das segundas-feiras até então reservado aos jornais da tarde.

Mesmo contando com a cobertura de uma rede de emissoras de TV já consagrada, no curto prazo aquele confronto foi vencido pelo JB. O jornalão poderia ter sobrevivido galhardamente ao atual oligopólio da Vênus se mantivesse a aposta em qualidade iniciada nos anos 1950 e acrescida daquele mínimo de compostura e decência que o negócio de jornalismo torna imprescindível.

Há meio século, como agora, o único “modelo de negócio” capaz de tornar-se invulnerável às novas tecnologias e à inevitabilidade dos ciclos econômicos é a crença nos valores permanentes, intrínsecos ao próprio negócio. A obsolescência torna-se inevitável, fatal, quando a fé pública é flagrantemente violada por aqueles que deveriam venerá-la.

A entrevista dos representantes da família Marinho ao jornal Valor Econômico é dolorosa. Junto com o melancólico quadro inserido no Jornal Nacional (durante a semana de 20 a 25 de abril) revelam uma Vênus nem dourada nem platinada – fanée, desbotada, descolorida.

O oba-oba em homenagem ao venerando plim-plim tem algo de adeus. Uma lástima.

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Recolhidas as lantejoulas, encerrada a quermesse televisiva, a paróquia platinada volta ao ramerrão. A próxima festinha – se houver – será em 2065. Se completar um século o império global deverá estar operando em outro ramo. Inevitável: dinossauros, assim como os mosquitos, têm prazos de validade rigorosos, ciclos definidos. Tal como acontece na astronomia, depois de alcançar o zênite qualquer astro ou constelação embica invariavelmente em direção ao nadir.

O balanço da chatíssima festinha dos 50 anos aponta para uma clara fadiga do material. O novo cenário high-tech do Jornal Nacional não consegue camuflar a obsolescência dos estrategistas que apostaram no novo brinquedo todas as suas fichas em matéria de criatividade e inovação. Dentro de seis meses, no máximo, o novo telão será um gadget velho.

A TV Globo não avança em matéria de conteúdo e concepções, tem medo de mudar essências, teme embarcar no expresso da qualidade e perder o controle das mudanças. Prefere marcar passo a converter-se em campeã de saltos. Cada vez que o sistema global esboçou um movimento em direção da qualidade e consistência de sua mensagem, o próprio sistema aplicou imediatas reversões. Cada passo aplicado na direção de uma TV adulta resulta sempre em retrocessos e mais infantilização. O conglomerado abomina a dialética, tem alergia ao dinamismo.

Primeiras fissuras

É uma tremenda injustiça acusar o Grupo Globo de golpista. Ao contrário, é intrinsicamente conservador, organicamente comprometido com a manutenção do status quo. E quanto mais se oligopoliza mais precisa controlar eventuais mudanças.

Isso não significa que as convicções do Grupo Globo sejam reacionárias – a defesa do meio ambiente, dos direitos das mulheres, dos programas assistenciais, da reforma da educação, das quotas étnicas, de privilégios para confissões religiosas e até uma benevolência com o homossexualismo compõem um ideário minimamente progressista capaz de dar a impressão de mudança formal sem mudança real.

São exemplares os dois mea culpa relativos a opções não democráticas durante a ditadura militar e embutidos no esperto retrospecto do Jornal Nacional. Com muito charme, cativante informalidade e bonomia o Grupo Globo vai aparando arestas, maquiando vexames e reescrevendo a história a seu favor.

Está no seu direito. E nós no nosso, ao respeitar a dialética hegeliana e pressentir que esta formidável hegemonia começa a apresentar fissuras. Voltaremos ao assunto, motivos não faltam.

*****

Por Alberto Dines em 06/05/2015 na edição 849

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