23 de maio de 2013

Salve (o fim de) Jorge.

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Salve-Jorge

O capítulo final de Salve Jorge quase coincidiu com o choque de dois balões na Capadócia que deixou três brasileiros mortos e outros oito feridos, no domingo (19/5). O que isso tem a ver com a novela que disputava com Passione (Silvio de Abreu, 2010-2011) os índices médios mais baixos do Ibope, entre 34 e 35 pontos? Nada. Nada mesmo. Por mais que tente engajar-se em temas construtivos – crianças desaparecidas, sequestradas, mulheres traficadas ou espancadas em casa –, a novela de TV roda num universo fictício. Existe para tirar o telespectador da realidade e desconectá-lo do mundo real. Se fosse obra de arte, a engajada seria intragável. Não sendo arte, a novela existe para isso, para tirar o espectador do ar.

E que mal teria isso? Nenhum. Até hoje as diversas versões de Anna Kareninade Tolstoi, que morreu há mais de cem anos, comovem o público pela mulher que abandona o bom marido depois de se apaixonar por outro homem e é tão castigada pelos ciúmes e pela sociedade que escolhe sucumbir debaixo de um trem. E até hoje o conto de Edgar Allan Poe sobre a amada morta que renasce ou os filmes de Alfred Hitchcock com mortas-vivas e pássaros assassinos atraem público no mundo inteiro.

A não ser no último capítulo, que catapultou a trama de Glória Perez para 45 pontos, por que Salve Jorgefez tão pouco sucesso? Lá vinha outra vez o filho falido que não era do pai e sim de um amigo riquíssimo da família, a traição da amiga com o marido da outra, a tentativa de glamour na Capadócia e nas montanhas da Turquia, o sotaque exagerado e até a dança dos véus na rua quando a Turquia tenta se apresentar como um país moderno que quer fazer parte da União Europeia.

Escola de Janete

Salve Jorge trouxe dramaturgia simplória, que prejudica a boa dramaturgia brasileira do cinema e da TV. Criou paradigmas, narrativas imbecis e quebra de sequências ligadas por um inexplicável abrir e fechar de portas (imensas, que moda foi essa?), sem acompanhar a ação. Exagerou na breguice do morro do Alemão para atrair a classe C – espelho distorcido que não convenceu – e no folclore turco, gastou modelos no lugar de atores e atrizes, poupou bons profissionais (Eva Todor, Walderez de Barros, Stenio Garcia), exagerou na pieguice dos diálogos, não turbinou como pretendia com as emoções baratas e não entrou na corrente da energia criativa.

Rir é o melhor remédio quando o foco não é o galã sério da novela (Rodrigo Lombardi, ou Theo, que as redes sociais apelidaram de Pasthéo), a protagonista Lívia Marini tecida no estereótipo da maldade de Claudia Raia que termina striper presa em Praga sobre uma taça gigantesca de champanhe, a traficante de mulheres e bebês Wanda (a ótima Totia Meirelles) que atrás das grades declarou “aceitei Jesus”. Até que no último capítulo Salve Jorge se salvou pelo humor inusitado do “melhor não levar a sério”. Mas poderia ter escolhido o caminho de Silvio de Abreu em Belíssima(2005-2006), quase 50 pontos de Ibope, para surpreender o espectador glorificando o crime da vilã, homicida e ladra que terminou milionária em Paris.

Salve Jorge fez tudo como previsto nos capítulos divulgados semana a semana. A surpresa foi o ridículo do último capítulo, que fez o adicto de telenovelas rir, varrendo a infelicidade que no longo prazo costuma acometer o viciado em novelas.

Valeu para a mulher fatal Lívia que virou capa da revista da TV de O Globo,de Morena (a surpreendente Nanda Costa) e a delegada Helô (pivô da novela, Giovanna Antonelli), que um dia antes do capítulo final ganharam uma página cada em O Globo vendendo o xampu e o tonalizante Niely. Os balagandãs de Helô também foram campeões de venda no Dia das Mães na Rua 25 de Março paulista e no Saara carioca – agora o sonho das meninas é ser delegadas.

Não quer dizer que não houvesse ótimos e antigos atores, os pilares de sempre das videotices. São de rolar de rir as cavernas, os cavalos, a súbita paixão de Érica (Flávia Alessandra) pelo advogado Haroldo (Otaviano Costa) que a atropela, fazendo com que perca o bebê (ora, ela diz, “não tinha que ser”) do antes adorado Theo que se casa com Morena, a tontice de Aisha ( Dani Morena), e o final programado para todo mundo se dar bem.

Lembrou a novela de Janete Clair em 1969, Anastácia, A Mulher Sem Destino, que naufragava por excesso de personagens e, para acabar com isso, Janete criou um terremoto que matou todo mundo, menos quatro. Em Salve Jorge,a solução de Gloria Perez foi acertar a vida de todo mundo, até de quem não pensava nisso, como Lucimar (Dira Paes) namorando o mordomo Thompson (Odilon Wagner); a desprezada Bianca (Cléo Pires), que esquece o turco Zyah (Domingos Montagner) e está feliz na praia de nudismo; Celso (Caco Ciocler), que solapa os anos em que foi filho de Arturo pela herança que vai receber por ser filho de outro, um milionário; Russo (Adriano Garib), algemado por Lohana (a ex-modelo Thammy Miranda, filha da dançarina Gretchen) num cena erótica que vira vingança das meninas aprisionadas contra o bandido.

Mundo real

É muita apelação. Será que a próxima novela das 9, Amor à Vida,com o casal gay pagando por uma barriga de aluguel vai sucumbir como Torre de Babel(Silvio de Abreu) com a opção sexo, drogas e violência em 1998, ou como Renascer(Benedito Ruy Barbosa em 1993) apelando para a aberração do hermafrodita na linha “João que era Maria”?

Para competir com os dois pais ou duas mães, a Rede Record estreia Dona Xepa, belo sucesso da Globo em 1977 baseado na peça – teatro, enfim teatro – de Pedro Bloch, autor premiadíssimo de As mãos de Eurídice. E realismo fantástico por realismo fantástico, mês que vem a Globo estreia o remake deSaramandaia, de Dias Gomes, com explosão da Dona Redonda, o voo de João Gibão e as formigas saindo pelo nariz do coronel Zico Rosado.

Com as novidades o público terá esquecido Salve Jorge,que aumentou o turismo de brasileiros na Turquia, e o acidente fatal com o balão na Capadócia (domingo,19) vai valer só para aqueles focados nos jornais e telejornais, a outra trip, a Turquia real.

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Norma Couri é jornalista

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