30 de abril de 2013

Bombas, pouca informação, muita emoção.

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Em tempos de “avalancha noticiosa pela internet” e críticas à cobertura jornalística das explosões em Boston nas TVs, vale aprofundar o debate: para que ainda serve uma TV com notícias 24 horas como a CNN e a Fox nos EUA ou a GloboNews, no Brasil? Como noticiar grandes eventos, desastres ou atentados, ao vivo pela TV, quando o público tem acesso constante a milhões de notícias verdadeiras e falsas pela rede?

Ainda há espaço para um meio de comunicação essencialmente uníssono e unilateral como a TV em um mundo cada vez mais interativo e participativo? Qual será o futuro de canais de notícias na TV como a CNN, Fox ou GloboNews?

Recentemente tive o privilégio de estar na sede mundial da CNN, em Atlanta (EUA), no exato momento em que as bombas explodiam em Boston. Pude testemunhar mais esse capítulo da história do jornalismo diretamente do “olho do furacão”, durante uma visita que foi parte de prêmio do Concurso de Jornalismo Universitário promovido pela CNN. Presenciei a mobilização de um verdadeiro exército de jornalistas e técnicos tentando fazer “jornalismo sério” na TV. Insisto no “tentando”, considerando os grandes desafios financeiros para manter uma gigantesca corporação como a CNN em meio à crise jornalística e econômica nos EUA e no mundo.

Era evidente que a tarefa era inglória. A competição da TV e do jornalismo sério com os novos canais informacionais da era digital como as redes sociais Reddit, Twitter ou YouTube, além de injusta, é frenética e feroz. Mas minhas dúvidas ou críticas em relação à qualidade do jornalismo produzido por TVs noticiosas como a CNN não se resumem aos erros ou acertos pontuais durante eventos ou desastres como as explosões em Boston. A grande questão transcende a esses momentos. Como manter um gigantesco e oneroso canal de TV com notícias 24 horas, um verdadeiro dinossauro informativo, diante de uma competição mais ágil e diversa, apesar de frágil e incerta em termos de seu conteúdo? Como manter esse enorme canal jornalístico quando nada de muito importante ou relevante acontece no mundo?

Ou seja, estou colocando em dúvida o papel da TV em tempos digitais. Mas também coloco em dúvida a participação do público na cobertura do atentado em Boston.

A crítica descreve a cobertura da imprensa – e em especial a cobertura televisiva – como desastrosa. Os jornalistas deveriam ter buscado informações mais apuradas e confiáveis durante ao pandemônio dos eventos. Mas será que o público concorda com a crítica? O que será que o público realmente espera da TV nessas grandes tragédias? Informação ou emoção?

Sempre sustentei que a televisão é essencialmente um veículo emotivo. Ao contrário de outros meios como os jornais, revistas ou livros, ligamos a TV para satisfazer necessidades prioritariamente emocionais. Pela TV queremos compartilhar a alegria e a dor com outras pessoas, sejam elas jornalistas, artistas ou outros telespectadores. Tanto faz. Ficamos grudados na telinha durante tantas horas para compartilhar a dor ou a alegria do momento – ao vivo e em cores.

TV para sobreviver

A informação na televisão é um acessório ao meio. O público recorre à TV para manter uma corrente emocional diante de alegrias ou adversidades. Isso talvez explique os erros recorrentes nas coberturas de desastres das emissoras com notícias 24 horas. E não é à toa. Afinal, ao contrário de outros profissionais que lidam com tragédias como os bombeiros, por exemplo, os jornalistas não se preparam para cobrir esses eventos. Acreditamos na capacidade desses profissionais para improvisar diante das câmeras ao vivo, durante 24 horas no ar, sem as mínimas condições de treinamento prévio ou de apoio de produção para apurar as notícias. A TV sempre confiou no seu maior poder, a capacidade de transmitir eventos ao vivo, com a capacidade de improvisar ou o “jeitinho” de seus profissionais.

E no passado, como as redes de TV tradicionais cobriam os grandes desastres? Elas suspendiam a programação normal para transmitir somente “boletins informativos” (breaking news)que duravam somente alguns poucos minutos? Dificilmente havia uma cobertura de qualquer evento durante 24 horas. Afinal, quem mudou, piorou ou melhorou: as TVs ou o público?

Em meio aos grandes eventos e desastres, exigir que a televisão seja um meio prioritariamente informativo é injusto com as características essenciais do meio televisivo. Seria o mesmo que exigir informações detalhadas sobre a morte de um ente querido, por exemplo, durante um velório. Nessas ocasiões queremos compartilhar emoções, a dor da perda, nos preparar para enfrentar um mundo sem aquele que amamos ou odiamos.

A TV talvez seja esta corrente de emoção que menospreza a informação, mas que privilegia a emoção. Não devemos jamais ignorar ou menosprezar a participação efetiva do público durante a cobertura de grandes eventos ou desastres. Se não somos todos idiotas, se não somos ingênuos inocentes, talvez as respostas para muitas dessas questões estejam no público da TV.

Se ainda assistimos aos canais com notícias durante tantas horas e dias nesses momentos trágicos, a resposta talvez esteja na “cumplicidade” do público com os erros e desacertos da cobertura jornalística. Nesses momentos de dor ou alegria, talvez não estejamos muito interessados em informações apuradas e precisas. Diante do medo e da incerteza, buscamos conforto e compreensão não nas palavras dos jornalistas, mas nas emoções compartilhadas pelas imagens da TV. Mesmo que sejam imagens tão limitadas, repetidas e incompreensíveis.

Buscamos na TV a solidariedade da conexão ao vivo e em cores não para entender o mundo, mas para sobreviver a ele.

***

Antonio Brasil é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Catarina

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