6 de agosto de 2010

Placar do debate? 0X0. Resultado serve mais a Dilma

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Fonte: Josias de Souza da Folha Online

Ficou no zero a zero o primeiro debate presidencial da sucessão de 2010, promovido pela TV Bandeirantes. Ninguém saiu de campo contundido. E nenhum candidato fez um golaço capaz de levar a arquibancada a trocar de time. Melhor para Dilma Rousseff. Ruim para José Serra. Por quê? A oposição alardeara durante meses que, nos debates, Serra faria picadinho da rival.

Ao deixar a arena inteira, a candidata de Lula cumpriu a tabela. Quanto a Serra, foi como se tivesse cedido o empate num campo que era considerado seu. De resto, em termos de audiência, o debate perdeu de goleada para o outro evento da noite: a partida entre São Paulo e Internacional.

Na abertura, uma pergunta da produção do programa. Dilma exalava nervosismo. Olhou para a câmera errada. Soou confusa. Perdeu-se no cronômetro. Do segundo bloco em diante, a pupila de Lula, orientada pelo marqueteiro João Santana no intervalo, acertou o passo. Modulou os seus nervos com os de Serra, calmo desde o início.

Cada um jogou o seu jogo. Nada de polêmicas ou caneladas. Nem sinal de Farc, MST, dossiês e coisas do gênero. Um prenúncio do que deve ocorrer na propaganda eleitoral. Dilma agarrou-se em Lula. Ao evocar a atual gestão, falou sempre num plural auto-inclusivo: “O nosso governo” fez isso, “nós fizemos” aquilo.

Serra dissociou-se de FHC. Em dado momento, disse que mira o futuro, não o retrovisor. No quarto bloco, aberto a perguntas de jornalistas, teve de olhar para trás. Foi o ponto em que o debate mais se aproximou do modelo plebiscitário idealizado por Lula. Um dos “inquisidores” da emissora perguntou a Serra por que foge de FHC, como fizera Geraldo Alckmin, em 2006. Questinou-o sobre as privatizações. Podendo defender o amigo FHC, Serra acendeu o farol dianteiro: Eleito, “vou valorizar o patrimônio público”.

Disse que dará cabo das nomeações políticas. Citou o caso dos Correios. Era “empresa modelo”. Virou feudo partidário, palco de “coisas não recomendáveis”. Sabia que Dilma comentaria sua resposta. E fustigou: Se o petismo era contra as privatizações, poderia ter reestatizado as estatais levadas ao martelo sob FHC.

E Dilma: “Nós respeitamos contratos”. Fisiologismo? Havia também sob FHC, ela insinuou. Disse que, ao chegar, em 2003, encontrou apadrinhados de deputados na Petrobras. Deu a entender que a prática grassou também sob Serra, em São Paulo. No mais, disse que, a despeito da coleta das privatizações, a dívida pública dobrou sob FHC.

Ao treplicar, Serra cuidou de si. Não loteou cargos em São Paulo. Nem na prefeitura nem no governo. E quanto a FHC? Bem, Serra preferiu terceirizar a um petista a defesa do amigo indefeso. Recomendou a Dilma uma conversa com Antonio Palocci. O ex-ministro da Fazenda de Lula os assistia da platéia. “Passou anos elogiando a política econômica do Fernando Henrique. Hoje, é assessor da Dilma”, Serra alfinetou.

Minutos antes, o tucanato saíra-se com uma pegadinha. Mencionara as Apaes (associações de pais e amigos dos excepcionais). Por que o governo discrimina a entidade?, sapecara. Sem ter idéia do que estava por vir, Dilma pôs-se a elogiar as Apaes. E Serra sapateou: Se pensa assim, disse, deveria ligar amanhã mesmo para o ministro Fernando Haddad (Educação). Insinuou que a entidade de excepcionais está sendo discriminada.

No final da peça, os coadjuvantes: Marina Silva posa de terceira via e Plínio de Arruda Sampaio faz cara de via única, "radical". No curso do debate, Plínio, mais performático, roubou a cena de Marina. Sem nada a perder, fez ironia com as contradições dos três antagonistas. Difícil saber se ganhou votos. Mas divertiu a platéia. Já, Marina salpicou em suas intervenções dados autobiográficos. A infância pobre, a alfabetização tardia, a fome... Uma Lula de saias. E com diploma. Afora as estocadas de Plínio, tudo dentro do script. Um debate à brasileira, circunscrito no cercadinho de regras impostas pela marquetagem das campanhas.

O petismo chegou ao extremo de proibir a contraposição de imagens. Nada de mostrar a cara de Dilma no instante em que Serra estivesse falando. E vice-versa. Em meio a um mar de pseudodiferenças que igualaram os candidatos, coube ao socialista Plínio pronunciar a frase-síntese da noite. Depois de chamar os rivais de "Polianas", resumiu-lhes a plataforma comum: “O bem deve ser feito. E o mal deve ser evitado. Isso não quer dizer nada”. Diferente mesmo, só ele. Uma opção que o eleitor vem se abstendo de adotar.

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